quarta-feira, 11 de outubro de 2017

FRIDA



A beleza mora logo na capa. Ninguém resiste a tocar o tecido acetinado de que é feita, a passar os dedos pelas cores fortes, a sentir as flores, o rosto... O nome também está lá. Mas ainda que não estivesse, saberíamos sempre que este é um livro sobre Frida Kahlo.


Abrir o livro é como entrar num museu para ver uma exposição sobre a vida e a obra da pintora.  O visitante percorre as páginas de mão dada com o sofrimento e a dor de Kahlo, do mesmo modo que respira a beleza e as cores com que pintou a vida que a escolheu.


A poesia do texto de Sébastien Perez é coadjuvada por frases e reflexões da própria Frida, recolhidas do seu diário e da correspondência particular. As magistrais ilustrações de Benjamin Lacombe recriam alguns dos quadros mais conhecidos da pintora mexicana, deleitando-nos os olhos, demoradamente, a cada página. Mais do que a linha impressionantemente fiel com que reinterpreta algumas dessas telas, o trabalho de Lacombe surpreende pelos elementos que reúne e que com uma unicidade ímpar nos transportam para o universo de Kahlo. Como se todos e cada um sempre lá tivessem estado. Tudo somado, ao leitor visitante surge a convicção de que este é um objecto feito, não a quatro, mas a seis mãos.


São nove os temas escolhidos para alicerçar o universo "fridiano".  O acidente, a medicina, a terra, a fauna, o amor, a morte, a maternidade, a coluna partida e a posteridade. A escolha deve-se, no entender dos autores, ao facto de serem estes os temas que constituem a coluna vertebral da obra e da vida da pintora. A ordem com que surgem não é aleatória, deixando antever a cronologia de alguns dos acontecimentos mais marcantes que viveu. Também o número nove não é fruto do acaso,  mas sim da simbologia de que se reveste na cultura asteca, tão cara a Frida.


Com um fabuloso trabalho de recortes, cada tema está estruturado em blocos de três páginas que nos permitem um olhar a três dimensões e que o próprio Lacombe explica desta forma em entrevista ao blog da rtve:
Tenemos la primera capa que es lo que vemos. Luego hay una segunda en la que observamos la relación entre la vida y la obra de Frida, gracias a la que comprendemos muchísimas cosas. Y una tercera donde entendemos el ámbito de referencias aztecas, mayas, taoístas… y juntando las tres tenemos una dimensión nueva de Frida. Hay tres dimensiones en el libro que son como las tres dimensiones de la pintura de Frida Kahlo. Para comprenderlo tendréis que ver el libro”.


Uma homenagem a Frida, à sua vida e obra, que é, simultaneamente, uma homenagem ao livro enquanto objecto de arte e expressão cultural. Um livro que tem, seguramente, como destinatários todos os amantes de arte e do belo, independentemente da idade. Todos os que admiram o trabalho de Frida e todos os que o desconhecem. 


A inclusão de um texto de Lacombe sobre Frida, a interacção com as escolhas e critérios que presidiram à construção do livro, a existência de uma cronologia e de um glossário são elementos preciosos para uma melhor compreensão do doloroso e fascinante universo de Kahlo. E, queremos acreditar, um factor adicional para que este livro, editado  pela Kalandraka,  possa ser visto e apreciado por várias gerações aí em casa.


Porque a arte não se explica, contempla-se. Dêem as mãos aos mais pequenos e entrem!

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Ilha do Avô


Muito do fascínio da infância reside na ténue fronteira entre o real e o imaginário, capaz de fazer a criança experienciar  um encantamento que, tantas vezes, escapa ao entendimento do adulto. Enquanto livreira, não é incomum ouvir frases como esta: "Não sei o que esse livro tem, mas o meu filho não o larga."
Sim, há livros onde a criança entra e que se tornam num lugar onde sempre quer voltar. 


A Ilha do Avô, de Benji Davies, é um desses lugares onde se quer ir muitas vezes. Na companhia de Cid, um pequeno rapaz, e do seu avô, a viagem atravessa uma história feita de  amor e de cumplicidades, mas também de perda e de saudade.


A partilha dos dias é facilitada pela proximidade. A casa do avô situa-se  mesmo ao fundo do jardim de Cid e há sempre uma chave debaixo do  vaso de flores para que o pequeno possa entrar sempre que queira.  Um dia, é surpreendido pela presença do avô no sótão, uma parte da casa que ainda desconhecia. Os sótãos são sempre guardadores de coisas mágicas, de tesouros, de memórias... O do avô não fugia à regra. No meio de todas as coisas que  trouxera de várias partes do mundo, tapada por um lençol, havia uma porta metálica à espera de ser transposta. Como que por magia, num virar de página, os dois protagonistas já se encontram no convés de um grande navio.


À semelhança do primeiro livro, A Baleia, também editado pela Orfeu Negro, Davies opta por um texto curto,  deixando às ilustrações a tarefa de contar grande parte da história. Os seus destinatários agradecem. Prolíferas em detalhes, são elas que nos permitem, mesmo antes de nos aventurarmos pelo mar, conhecer já este avô. Amante de pintura, de livros, de música, dedicado às flores e aos animais, viajante convicto...


Davies utiliza com grande mestria as cores e os jogos de sombras, mostrando, de forma sublime, a paradisíaca ilha onde avô e neto chegam depois de muitas milhas de mar. Os pássaros e toda a espécie de animais, as árvores e flores, a velha cabana... deleitam os leitores de um modo só  comparável ao do pequeno Cid. Para ele, aquele é o lugar perfeito onde queria que ficassem para sempre. Mais uma vez, é surpreendido pelo avô, que lhe comunica a intenção de ficar. 


Acompanhamos o pequeno timoneiro na viagem de regresso. Sem o avô, embora não totalmente sozinho. Uma viagem que parece maior, porque é já feita de saudade. Cid não perde tempo e logo na manhã seguinte volta a casa do avô. A chave estava debaixo do vaso de flores, lembram-se? 


Tudo parecia igual, mas o avô já não estava lá. A grande porta metálica também não. Nem alguns outros pertences que os leitores são, implicitamente, desafiados a descobrir numa página que se repete. Como se de um jogo de diferenças se tratasse.  


Um livro que permite mais do que  uma interpretação. O que cada leitor extrai  dependerá, acima de tudo, de si próprio. Para uns, talvez os mais pequenos, o avô vive, agora, feliz naquela ilha longínqua, rodeado pela natureza e pelas coisas de que gosta. Para outros, a deliciosa subtileza utilizada pelo autor não apagará um cenário de perda deste avô com bengala, que  combina o uso de gravata e pulóver com calças de pijama e chinelos de quarto. Seja como for, o final da história, que deixamos para descobrirem, é um forte tributo à imaginação. E àquela fronteira ténue de que falámos.
Façam o favor de levar as crianças até à ilha!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como Funciona La Maestra. Bom ano, com boas leituras!


Setembro é tempo de abrir portas. As crianças estão de volta à escola. Para algumas não é um regresso, é apenas o começo. Para todas há um denominador comum: os professores.

Logo na apresentação, ficamos a saber que a professora tem uma parte da frente, que é a que quase sempre se vê, e uma parte de trás, que se vê quando ela se volta.

Como Funciona La Maestra, com texto de Susanna Mattiangeli e ilustrações de Chiara Carrer, é uma belissíma e divertida homenagem à figura do professor. Em jeito de RX, a professora vai sendo dissecada com irresistiveis doses de criatividade e de humor.

Las maestras pueden tener colores y diseños muy distintos. Pueden ser oscuras, claras, enruladas, lisas, a lunares, floreadas, espiradas, a cuadros y de estampados multicolores. Sobre la maestra a rayas se escribe, sobre la maestra cuadriculada se hacen las cuentas.

Há professoras altas, baixas, gordas, magras, de várias cores e feitios... A diversidade reina na proporção da imagem que as crianças podem ter delas. Ainda assim, os mais pequenos ficam a saber que uma professora pequena não é apenas metade de uma professora, assim como uma muito grande não vale por duas.


Dentro da professora estão os números, as tabuadas, os rios, as montanhas, o relógio, os cinco sentidos, o homem primitivo e muitas outras coisas que, passado pouco tempo, também vão para dentro dos meninos.
Uma imperdível aula de anatomia que não se fica só pelo estudo das características físicas e onde o género masculino não é esquecido. Porque, às vezes, a professora é um homem. 


Maîtresse, teacher, morá...  o elenco da palavra em várias línguas não foi esquecido. Mas não se iludam porque, entre elas, falam o idioma das professoras, que é como o idioma dos adultos, mas mais difícil. Com as crianças falam se-pa-ran-do bem as sí-la-bas, em voz baixa ou GRITANDO.


A mestria do trabalho de Chiara Carrer não surpreende quem a conhece. Desenho, colagem, papéis e texturas diferentes contribuem para um álbum deliciosamente imaginativo que resulta num retrato do professor com que os mais pequenos facilmente se identificam. E que, carinhosamente, transporta o leitor adulto para os bancos de escola. Com a certeza de que mesmo quando o tempo passa e a nossa professora já é a professora de outros, se a voltamos a encontrar sabemos sempre que é ela! Ou que quando é necessário relembrar um poema ou uma velha história ouvida na sala de aula, basta procurar bem e encontramos facilmente o nosso lugar e o de todos os outros, tal como a professora nos tinha colocado!
Este é o livro da semana na Casa dos Hipopómatos. Visitem-nos, venham vê-lo! Bom ano & boas leituras!